The Art of the Bad Deal: Para matar uma mosca na cozinha, Trump quer demolir a casa
Usar tarifas de importação para melhorar a balança comercial é uma das piores ações possíveis em economia
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Introdução
No texto anterior, comentei a respeito de um dos motivos pelos quais Trump iniciou essas guerras comerciais, a saber, a busca por reindustrialização dos EUA. No texto, argumentei que esse objetivo é nocivo para a economia americana. Mantendo a mesma “vibe” do texto anterior, neste irei comentar sobre outro motivo da implementação das guerras tarifárias (talvez o principal entre todos): a redução no déficit comercial americano. Tal como antes, irei mostrar que a busca por esse objetivo mediante tarifas de importação é nociva à economia do país.
O efeito das tarifas sobre o saldo comercial americano será pequeno ou nulo
Pequena divagação teórica
Vamos desconsiderar o fato de que déficit comercial não é um problema para os EUA e vamos supor que o país queira combatê-lo. Tarifas de importação são uma forma efetiva de realizar isso? A princípio, parece razoável supor que sim: se déficit comercial equivale à um excesso de importações sobre exportações, e se tarifas de importação restringem as importações, então parece lógico supor que elas diminuem o déficit comercial do país.
Mas, na prática, não é tão simples assim. Vamos entender o porquê. Vamos direto ao cerne da questão: uma política econômica só altera o saldo comercial do país se ela alterar a diferença entre poupança agregada e investimento agregado desse país. Para entender o motivo disso, vamos seguir as simples equações abaixo.
Primeiramente, comecemos com a famosa equação do PIB pela ótica da demanda:
onde Y é o produto total do país; C é o consumo privado agregado; I é o investimento agregado; G é o consumo do governo; NX são as exportações líquidas, ou seja, total de exportações menos importações (tanto de bens quanto de serviços).
Podemos adicionar e subtrair o termo T dessa equação, que representa o montante total de impostos líquidos, e também fazer alguns rearranjos de modo a chegar em:
Rearranjando novamente, podemos chegar aos termos que representam a poupança agregada privada e pública do país, denotadas por S:
Assim, conclui-se que:
A conclusão que se tira desse exercício algébrico é que o saldo comercial de um país depende da diferença entre poupança agregada e investimento agregado. Esse resultado é uma identidade contábil — ou seja, é impossível fugir dele.
Assim, resta a pergunta: de que forma uma tarifa de importação poderia alterar a poupança ou o investimento do país? É possível que não altere nenhum dos dois, deixando o déficit comercial também inalterado.
Esse é o resultado proveniente, por exemplo, do modelo IS-LM-BP (modelo de Mundell-Fleming), em que há mobilidade perfeita de capitais. Se um país impõe uma tarifa de importações, a demanda por moeda estrangeira diminui, gerando uma apreciação no câmbio de tal modo a fazer com que a queda nas importações (causada pelas tarifas) seja exatamente na mesma magnitude que a queda nas exportações (causada pela apreciação cambial), deixando a balança comercial inalterada1. No caso dos EUA, que, como dito em texto anterior, não possui a restrição de busca por divisas internacionais, o mecanismo é um pouco diferente, porém o resultado final é o mesmo: a queda nas importações do país reduz a oferta de dólares no mercado internacional de câmbio, apreciando o dólar perante as demais moedas e, assim, tornando o preço dos produtos americanos relativamente mais caros, reduzindo, por fim, as exportações do país.

Mas esse modelo, além de supor mobilidade perfeita de capitais, supõe incapacidade do país afetar os preços internacionais (ou seja, que o país seja “pequeno”). Além disso, é um modelo de curto prazo, no sentido de que supõe preços e salários nominais rígidos. Se relaxarmos as hipóteses do modelo para consideramos cenários mais realistas (sobretudo considerando a economia americana, que é uma economia grande capaz de afetar vários preços internacionais), então é possível, a princípio, que tarifas de importação afetem o saldo comercial do país — ou seja, que afetem a diferença entre poupança agregada e investimento agregado desse país.
Os resultados empíricos
Então, como vimos, na teoria de livro-texto a nível de graduação, tarifas de importação não geram mudanças no saldo comercial. Porém, relaxando as hipóteses dos modelos, podem sim gerar. Modelos teóricos mais complexos, do tipo DSGE por exemplo, mostram que, a princípio, anything goes: as tarifas podem aumentar, diminuir ou não afetar o saldo comercial do país.
Mas então o que os estudos empíricos dizem? Restringindo nossa análise somente aos estudos empíricos voltados aos EUA2, os resultados não são exatamente consensuais.
No âmbito dos modelos DSGE com calibração seguida de simulação, há os seguintes resultados: Kim & Shikher (2017) analisam o que ocorre com a economia americana caso ela aumente para 10% suas tarifas de importação (em um cenário, somente dos bens importados da China, em outro, de todos os demais países). O resultado é que, apesar de uma melhora de curto prazo na balança comercial, há uma piora no longo prazo3.
Já Anderson et al. (2013), usando o modelo GIMF do FMI (Global Integrated Monetary and Fiscal Model), simulam o que ocorre com a economia americana a partir de um aumento de 10 pontos percentuais nas tarifas de importação de todos os demais países. O resultado é similar ao de Kim & Shikher: uma melhora no curto prazo na balança comercial, porém uma deterioração no longo prazo a um nível abaixo do inicial4.
Para além de modelos que consistem puramente em DSGE e simulação, Boer & Rieth (2024), utilizando um método engenhoso que envolve tanto DSGE quanto narrativas históricas para restringir os sinais de um modelo SVAR Bayesiano, encontraram que um aumento nas tarifas de importação dos EUA geram sim um efeito positivo sobre o saldo comercial, apesar do efeito ser pequeno5.
Portanto, considerando os melhores métodos e estudos empíricos disponíveis, o resultado de tarifas de importação sobre a balança comercial é ambíguo no caso americano. Mas uma coisa é consensual entre todos os estudos, sejam os focados na economia americana ou os mais gerais: o efeito das tarifas sobre a balança comercial, caso exista, é muito pequeno.
Agora, compare esse efeito com o efeito sobre outras variáveis importantes da economia, como PIB ou consumo. O que os estudos consensualmente apontam é que ocorre uma piora nessas variáveis (e isso vale tanto para os estudos que focam nos EUA quanto para os estudos de escopo mais geral).
Veja, por exemplo, a figura 5 de Boer & Rieth (2024), que mostra um efeito negativo das tarifas sobre o PIB após um aumento delas em 1 desvio-padrão.

Ou então veja a figura 29 de Anderson et al. (2013), que, novamente, mostra um efeito negativo sobre o PIB americano após um aumento nas tarifas de importação naquele país:
Eu poderia continuar colocando mais figuras e tabelas aqui6, mas creio que o recado já esteja dado: todos os estudos já citados — e mais outros, como Dizioli e van Roye (2018) — concluem que tarifas de importação, em geral, são prejudiciais à economia que as implementa, levando em conta as principais variáveis macroeconômicas.
Então o quadro geral que temos é o seguinte: pode até ser que tarifas de importação melhorem a balança comercial americana. Caso isso ocorra, o efeito será muito pequeno — somente um pequeno arranhão no imenso déficit comercial daquele país. Qual o trade-off disso? Uma queda praticamente certa no PIB do país.
Está valendo a pena esse deal?
Existe uma forma mais inteligente de melhorar o saldo na balança comercial
Vamos supor que um país queira reduzir seu déficit comercial (mesmo que, como já enfatizado várias vezes por nós, déficit comercial não seja um problema). Existe alguma forma de fazer isso sem prejudicar enormemente a economia, como fazem as tarifas comerciais?
Vamos voltar nossa atenção para a identidade macroeconômica que encontramos anteriormente:
Como já dito, pode-se concluir a partir dessa identidade que a balança comercial só se altera quando a diferença entre poupança e investimento no país também se altera. Existe uma forma muito menos prejudicial de modificar a diferença entre esses dois termos do que a imposição de uma taxa de importação.
Deve-se usar a seguinte ótica para analisar essa questão: déficit comercial significa que o país está absorvendo mais recursos do que produzindo — assim, para preencher essa lacuna, recursos adicionais precisam vir do estrangeiro. Portanto, para diminuir a lacuna, há duas alternativas: absorver menos ou produzir mais7.
Considerando o lado da absorção, o governo pode diminuir seus gastos, reduzindo assim a drenagem de poupança do setor privado (supondo que essa mudança não gere redução em outros termos da equação do PIB maiores em magnitudes que a redução em G). É por isso que déficit comercial e orçamentário são chamados de “déficits gêmeos”: um déficit orçamentário drena recursos da sociedade, o que induz à queda na poupança agregada e ao déficit comercial.

Conclusão
A busca pela redução no déficit comercial dos EUA por meio da imposição de tarifas de importação, além de ser amplamente ineficaz (os efeitos na balança comercial são pequenos, isso se não inexistentes), impõe um claro custo à economia americana: redução do PIB, consumo, produtividade, e assim por diante. A literatura acadêmica mostra de maneira consensual que, mesmo quando há um ligeiro aumento no saldo comercial a partir da imposição de tarifas, ele é minúsculo diante das perdas econômicas associadas.
Uma abordagem mais inteligente para lidar com o déficit comercial seria atuar sobre os fundamentos macroeconômicos reais que determinam a poupança e o investimento no país, particularmente reduzindo o déficit orçamentário. Utilizar tarifas comerciais para resolver um problema estrutural é, no mínimo, uma estratégia improdutiva e, mais provavelmente, prejudicial ao bem-estar econômico do país.
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Leia também:
Essa conclusão está em linha com o Teorema da Simetria de Lerner, que postula que uma tarifa de importação ad valorem equivale a um imposto sobre exportações. Ou seja, o governo obtém receita ao passo que as exportações diminuem.
No âmbito mais geral, sem considerar um país em específico, há o estudo de Barattieri, Cacciatore & Ghironi (2021), que, utilizando dois métodos alternativos — VAR e DSGE com simulação —, chegam à conclusão de que tarifas de importação geram uma pequena melhoria na balança comercial do país. Já Furceri et al. (2021), mediante VAR aplicado a dados em painel, concluem que o efeito das tarifas sobre a balança comercial, no longo prazo, é nulo.
A síntese dos resultados estão nas tabelas 1 e 2 do trabalho.
A síntese dos resultados estão na figura 29 (pg. 63) do trabalho.
Ver, por exemplo, figura 7 do trabalho (pg. 25).
Ou então poderia mencionar o fato de que Boer & Rieth (2024) chegam a encontrar que desfazer as medidas protecionistas de 2018/19 aumentaria o PIB americano em 4% após 3 anos.
Essa é a abordagem da absorção do balanço de pagamentos.







