Reindustrializar os EUA equivale a torná-lo mais pobre
Não faz sentido econômico tentar reindustrializar um país desenvolvido
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Um dos motivos pelos quais Trump iniciou suas guerras comerciais é a busca pela reindustrialização dos Estados Unidos. Para além da factibilidade do uso de tarifas como instrumento para alcançar esse objetivo (escreverei mais sobre isso em outro texto1), cabe a questão da desejabilidade desse objetivo.
A princípio, parece que buscar reindustrializar um país é algo positivo, pois indústria remete à desenvolvimento — e quem não quer ver seu país desenvolvido? Mas vou argumentar abaixo que querer isso para os EUA equivale, na prática, a querer que o país empobreça.
Pois bem, o gráfico abaixo mostra a fração que cada setor da economia emprega em relação aos empregos totais do país para diferentes níveis de renda per capita, com enfoque em três países: China (vermelho), Coreia do Sul (amarelo) e Estados Unidos (azul).

Três conclusões podem ser tiradas do gráfico:
À medida que o país enriquece, cada vez menos trabalhadores são alocados no setor agrícola;
O emprego no setor manufatureiro tem um formato de U invertido: inicialmente, à medida que o país enriquece, cresce; depois, quando o país passa certo patamar de renda, volta a diminuir;
À medida que o país enriquece, cada vez mais trabalhadores são alocados no setor de serviços.
Ou seja, os estágios de desenvolvimento de um país parecem seguir um movimento natural. Inicialmente, o país é pobre, com a maioria dos trabalhadores trabalhando no setor agrícola. Então ocorre o 1º estágio de desenvolvimento, que consiste no movimento de saída de trabalhadores do setor agrícola e realocação aos setores de manufatura e serviços. Por fim, ocorre o 2º estágio de desenvolvimento, um estágio no qual a economia está mais madura, em que não só os trabalhadores da agricultura são realocados ao setor de serviços, mas também os trabalhadores do setor manufatureiro.
Com as tarifas, Trump quer justamente contrariar o processo natural de desenvolvimento do país! Mas isso não pode resultar em algo bom para os EUA.
O trabalho no setor industrial é um trabalho de menor valor agregado que no setor de serviços. É relativamente mais fácil substituir um trabalho no setor industrial por máquinas do que no setor de serviços, justamente pela natureza desses trabalhos: enquanto no setor industrial grande parte do trabalho é manual/mecânico, no setor de serviços é mais complexo — envolve habilidades pouco triviais, como fazer cortes de cabelo, interagir com clientes, instalar aparelhos, etc.
Ora, o processo de enriquecimento envolve justamente o processo de substituição de trabalhadores por máquinas, liberando os trabalhadores para que eles atuem em áreas mais complexas e, ao mesmo tempo, aumentando a produtividade deles.
Essa é a ideia presente, por exemplo, em artigos como o de Autor, que argumenta que, ao mesmo tempo em que a automatização destrói empregos, ela cria novos empregos — gerando, assim, uma dinâmica de complementaridade entre capital e trabalho.
Ou ainda podemos nos valer do arcabouço teórico presente em Acemoglu & Restrepo, que dizem que a inserção de máquinas no trabalho gera dois efeitos: o efeito de deslocamento (displacement effect), que equivale à substituição de trabalho por máquina e gera uma queda na demanda por trabalho e na parcela do trabalho no valor adicionado do país; e o efeito realocação (reinstatement effect), que equivale à criação de novos trabalhos a partir da introdução da máquina e gera um aumento na demanda por trabalho e na parcela do trabalho no valor adicionado do país. Mesmo que o efeito deslocamento supere o efeito realocação, parece ser o caso que o processo de automação ocorre de forma mais acelerada no setor da manufatura em relação ao setor de serviços (o próprio artigo demonstra isso empiricamente).
Assim, parece ser o caso de que, à medida que o país enriquece, se torna mais produtivo, a maior parte do valor adicionado do trabalho passa a estar no setor de serviços — mesmo que a fração do valor adicionado do trabalho no país caia como um todo.
Como consequência disso, podemos concluir que fazer com que um país desenvolvido aumente substancialmente o share de empregos no setor industrial/manufatureiro em detrimento do setor de serviços equivale a fazer com que o país empobreça. Trabalho de alto valor adicionado no setor de serviços estará sendo substituído por trabalho de baixo valor adicionado no setor manufatureiro.
Essa conclusão é óbvia quando você considera que o trabalho manufatureiro ocorre majoritariamente em países em desenvolvimento justamente porque o valor agregado do trabalho nesses países é pequeno relativamente ao valor agregado do trabalho nos países desenvolvidos — é justamente por isso que o salário em tais países é menor que o salário em países desenvolvidos, oras!
Na prática, ao querer reindustrializar os EUA, o que Trump quer é fazer com que um trabalhador americano altamente produtivo do setor de serviços (um advogado, um programador, um médico, um consultor) troque seu trabalho pelo trabalho de apertar parafuso em uma linha de montagem. Essa conclusão é ainda mais válida se considerarmos que atualmente os EUA estão em uma situação de pleno emprego2, o que significa que, em linhas gerais, o preenchimento de um posto de trabalho equivale à vacância de outro.
Isso não tem como dar certo.
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Leia também os seguintes textos no site do EcM:
Spoiler: as tarifas não serão efetivas para reindustrializar o país, pelo menos não na magnitude que Trump gostaria.
Em abril deste ano, a taxa de desemprego no país estava em 4,1%, e as estimativas da taxa de desemprego de pleno emprego (também chamada de “taxa natural de desemprego” ou “NAIRU”) ficam próximas desse mesmo valor.






