Quais serão os impactos das tarifas de 50% dos EUA sobre a economia brasileira?
Um raio-X das tarifas trumpistas sobre as importações provenientes do Brasil.
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Pre scriptum: Este texto é uma adaptação de um relatório (mais completo) escrito por mim disponível aqui. Os dados e códigos usados na análise se encontram na mesma pasta.
Introdução
Em 9 de julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre as importações de produtos brasileiros, a serem implementadas a partir de 1º de agosto. Entre os motivos citados por Trump em carta enviada a Lula para a implementação dessas tarifas estão o julgamento de Bolsonaro (que Trump considera uma "caça às bruxas"), as restrições às mídias sociais impostas pelo STF e as barreiras comerciais no Brasil, decorrentes de políticas tarifárias e não tarifárias.
Na carta, Trump também afirma que tais políticas protecionistas geraram déficits comerciais insustentáveis para os EUA. No entanto, isso é incorreto, como mostra a figura abaixo. A figura mostra a balança comercial bilateral anual do Brasil com os Estados Unidos — ou seja, o total das exportações brasileiras para os EUA menos o total das importações brasileiras de produtos americanos. A figura mostra que, desde 2009, o Brasil tem um déficit comercial com os EUA, e não o contrário. Em 2022, o déficit comercial bilateral do Brasil foi de quase US$ 15 bilhões. Em 2024, esse déficit, embora ainda presente, era quase zero.

Além das supostas motivações delineadas por Trump em sua carta, alguns analistas sugerem que há outros motivos para a implementação dessas tarifas. É possível que Trump esteja retaliando contra o flerte do governo brasileiro com a ideia de implementar uma nova moeda de troca entre os países membros do BRICS.
De qualquer forma, independentemente dos motivos, essas tarifas afetarão tanto o mercado americano quanto o brasileiro, se efetivamente implementadas. O mercado americano sofrerá porque os produtos importados do Brasil ficarão mais caros, reduzindo o consumo e pressionando a inflação. O mercado brasileiro sofrerá porque as exportações cairão, o que afetará a renda dos exportadores e setores associados a eles, impactando negativamente a demanda agregada e a renda da população1.
Dado isso, o objetivo deste texto é analisar, pelo menos parcialmente, alguns pontos importantes relacionados à implementação dessas tarifas. Mais especificamente, será realizada uma análise setorial para determinar quais setores da economia brasileira mais exportam para os EUA (que provavelmente serão os setores mais afetados pelas tarifas). Em seguida, será realizada uma análise regional para identificar os estados brasileiros mais afetados, bem como os setores mais afetados em cada região. Por fim, será feita uma análise mais específica de quais produtos os Estados Unidos mais dependem do Brasil.
Análise setorial
A figura abaixo mostra o valor das exportações brasileiras para os EUA para cada ano de 2001 a 2024, com os produtos desagregados por seções da Classificação Industrial Internacional Uniforme (CIIU). São quatro seções: agricultura; indústria extrativa; indústria de transformação; e outros produtos. O gráfico mostra que, de longe, o setor/seção que mais exporta para os EUA é a indústria de transformação, que vem crescendo desde o início da série (com algumas exceções, principalmente 2009 e 2020), atingindo exportações de mais de US$ 30 bilhões para os Estados Unidos em 2024. Em segundo lugar está o setor da indústria extrativa, com exportações de aproximadamente US$ 6 bilhões em 2024. O setor agrícola, apesar de forte no Brasil, exporta relativamente pouco para os EUA, visto que este país também possui uma agricultura extremamente competitiva.

Os dados da figura acima estão excessivamente agregados, o que impede uma análise mais detalhada. A figura abaixo, por sua vez, apresenta uma classificação mais desagregada. Ela mostra as dez categorias de produtos mais exportadas para os EUA em 2024, de acordo com a classificação do Sistema Harmonizado 2 (SH-2). A figura mostra que a principal categoria de exportação para os Estados Unidos são combustíveis minerais e óleos, com um valor de exportação de quase US$ 8 bilhões. Em seguida, vêm ferro e aço, com exportações de pouco menos de US$ 6 bilhões, e máquinas e equipamentos mecânicos, com exportações de quase US$ 4 bilhões em 2024.

Esses gráficos dão uma ideia de quais setores serão mais afetados pelas tarifas. De longe, o setor mais afetado será a indústria manufatureira — particularmente categorias como ferro, aço, máquinas mecânicas e aeronaves.
Análise regional
Para fornecer um quadro mais completo, vamos agora nos concentrar na análise regional para entender os efeitos heterogêneos das tarifas sobre diferentes localizações geográficas no Brasil. Para começar, podemos analisar a intensidade das exportações brasileiras para os EUA a partir de cada uma das cinco principais regiões do Brasil.
É exatamente isso que a figura a seguir faz. Ela mostra a evolução das exportações brasileiras para os EUA por região, de 2001 a 2024. A imagem mostra que a região que mais exporta para os EUA é o Sudeste, com uma tendência de crescimento nas exportações desde o início da série — novamente, com notáveis exceções em 2009 (a Grande Recessão) e 2020 (a pandemia da COVID-19). Em 2024, essa região exportou US$ 30 bilhões para os EUA, significativamente mais do que o segundo colocado, o Sul, que exportou apenas US$ 5 bilhões.

Perceba que há uma sobreposição quase perfeita entre a região Sudeste da figura anterior e o setor manufatureiro da figura que desagregou as exportações por setor. Isso sugere que o setor manufatureiro da região Sudeste será fortemente impactado pelas tarifas.
Mas, dentro da região Sudeste, quais são exatamente os principais estados exportadores? A figura seguinte responde a essa pergunta. Ela mostra a porcentagem das exportações brasileiras para os EUA por estado em 2024. A partir da figura, fica claro que o estado que mais exporta para os EUA é São Paulo, com uma participação total de exportação de aproximadamente 33%. Observe que os quatro estados do Sudeste são justamente os quatro que lideram o ranking, o que novamente indica o impacto significativo que as tarifas terão na região.

Quais produtos brasileiros possuem mais poder de mercado sobre a economia americana?
Nesta seção vamos tentar responder à questão de quais produtos importados do Brasil pelos EUA são os que a economia americana mais depende. Com isso, vamos conseguir concluir, pelo menos aproximadamente, quais produtos serão menos afetados pelas tarifas, uma vez que o volume exportado do Brasil não terá uma queda tão grande, dada a alta dependência do mercado americano por tais produtos.
Primeiramente, vamos analisar quais importações dos EUA têm o Brasil como principal parceiro comercial. Em outras palavras, vamos calcular a seguinte métrica:
onde m_{i,Brasil} são as importações dos EUA do produto i do Brasil e m_{i,mundo} são as importações dos EUA do produto i de todos os países do mundo.
A figura abaixo mostra o cálculo da equação (1) para os dez produtos com os maiores valores de α. Em outras palavras, esses são os dez produtos importados dos EUA cuja maior fração provém do Brasil. Os produtos são desagregados pela classificação SH-6, e a fonte é o Atlas da Complexidade Econômica de 20172. O gráfico mostra que 100% dos navios-petroleiros (tanker) importados dos EUA em 2017 vieram do Brasil, 98,5% das borras de cerveja/destilação (brewing/distilling dregs), e assim por diante.

A análise ainda está incompleta, pois não considera potenciais países substitutos para o Brasil no comércio dos produtos. Por exemplo, 100% dos navios-petroleiros importados dos EUA em 2017 vieram do Brasil, mas isso não significa necessariamente que os EUA dependam exclusivamente do Brasil para a importação de navios-petroleiros: se outros países também exportam navios-petroleiros, os EUA poderiam importá-los desses países em vez de importar do Brasil.
Portanto, para tornar a análise mais completa, é necessário considerar o poder de mercado do Brasil no comércio internacional de produtos. A figura abaixo faz exatamente isso. Ela exibe os valores dos dez produtos dos quais o mundo mais depende do Brasil, considerando apenas os 1.237 produtos que os EUA importaram do Brasil em 2017. Ela é derivada da seguinte métrica:
onde m_{ij,Brasil} representa as importações do produto i pelo país j do Brasil, e m_{ijk} representa as importações do produto i pelo país j do país k (obviamente, com j ≠ k).
Assim, a partir da figura, podemos concluir que, entre os 1.237 produtos que os EUA importam do Brasil, o ferronióbio é o que detém a maior participação de mercado: 72,4% de todo o ferronióbio comercializado mundialmente provém do Brasil. Em seguida, vêm as "ceras vegetais, não triglicerídeos", com 60%, e assim por diante.

Combinando as métricas (1) e (2), podemos agora ter uma ideia mais precisa do grau de dependência dos EUA em relação ao Brasil para cada produto importado deste país. Podemos criar uma espécie de índice de dependência (ID) para a economia americana para cada produto brasileiro i importado pelos Estados Unidos, da seguinte forma:
Se, por exemplo, ID_i = 100, então a dependência dos EUA do Brasil para um produto específico é máxima: somente o Brasil é capaz de fornecer esse produto aos EUA por meio do comércio internacional. Se ID_i = 0, então a dependência dos EUA do Brasil é mínima: os EUA não importam o produto do Brasil.
A figura abaixo mostra os dez produtos com o maior índice. Estes podem ser considerados os dez produtos para os quais os EUA são mais dependentes do Brasil. "Ceras vegetais, não triglicerídeos" lidera a lista, com uma pontuação de 50,9. Ferronióbio vem em segundo lugar, com 49,9 pontos, e assim por diante.

Na prática, o que esses resultados representam? Eles mostram quais produtos provavelmente serão menos afetados pelas tarifas: mesmo que seus preços aumentem, a magnitude do declínio nas importações americanas desses produtos será mínima, uma vez que o índice de dependência calculado nesta seção pode ser visto como uma proxy para a elasticidade-preço da demanda americana por produtos brasileiros. Quanto maior o índice, mais inelástica é a demanda e, portanto, menor o impacto das tarifas sobre o volume de comércio.
Com o exercício acima, podemos também retornar à questão do poder de barganha entre os países endereçada em texto anterior. Mas podemos fazer isso agora sob uma nova ótica, qual seja: abordando a questão da exclusividade na exportação de cada produto por cada país, uma questão que foi deixada de lado no texto anterior.
Tomando a média aritmética de todos os valores de (3) onde ID_i > 0 (ou seja, considerando apenas os produtos importados do Brasil pelos EUA), podemos chegar a uma métrica da dependência dos EUA em relação ao Brasil no comércio internacional. Fazendo isso, chegamos a um valor de 0,68. Se fizermos exatamente a mesma coisa, mas invertendo os papéis, ou seja, considerando os produtos importados dos EUA pelo Brasil, chegamos a um valor do índice de 2,84. Como 2,84 > 0,68, somos forçados a concluir, tal como no texto anterior, que o Brasil é mais dependente dos EUA — e, portanto, tem menos leverage — do que o contrário.
Vale notar que o exercício desenvolvido nesta seção também apresenta algumas limitações, duas em particular. A primeira é que ele não considera a parcela da absorção interna do país produzida dentro do próprio país3. Por exemplo, considere no exercício um produto com ID de 100. Isso não significa necessariamente que toda a absorção desse produto pelos EUA venha apenas do Brasil, pois é possível que os próprios EUA produzam parte da absorção interna. Segundo, o exercício não ponderara o valor das importações pelo PIB do país (em particular, pelo PIB dos EUA na equação (1)). Portanto, o índice de dependência aqui delineado deve ser visto mais como um conceito associado à elasticidade-preço da demanda pelas importações do produto do que à importância que o produto brasileiro em questão tem para a economia americana como um todo.
Conclusão
Este texto destacou alguns aspectos-chave da relação comercial entre os EUA e o Brasil, a fim de compreender os impactos das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos importados do Brasil. Constatou-se que a indústria de transformação é o setor que mais exporta para os EUA e que a região Sudeste — em especial São Paulo — é a região com o maior valor de exportação. Portanto, espera-se que o impacto negativo das tarifas seja sentido relativamente mais pela indústria de transformação e que a região Sudeste do país seja a mais afetada.
Além disso, uma métrica de dependência foi criada para analisar o grau de poder econômico dos EUA sobre o Brasil e vice-versa. Concluiu-se que os EUA detêm mais poder econômico sobre o Brasil do que o contrário. Em outras palavras, mesmo que os EUA sejam afetados negativamente pelas tarifas, o Brasil provavelmente será mais afetado.
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Eventualmente, alguns efeitos sobre a economia brasileira podem ser benéficos, mitigando assim os efeitos negativos. Por exemplo, muitos produtos anteriormente exportados para os EUA terão que ser vendidos internamente, aumentando assim a oferta doméstica desses produtos e reduzindo a pressão inflacionária. Mas, cabe ressaltar, dificilmente esses efeitos positivos serão suficientes para compensar os efeitos negativos, no agregado.
Infelizmente, não foram encontrados dados mais recentes para realizar as análises desta seção, nem no Atlas da Complexidade Econômica nem em outros sites.
“Absorção doméstica” é definida como a soma do consumo agregado, do investimento agregado e dos gastos do governo de um país.





