Pós-keynesianos estão errados: Poupança precede investimento!
Sobre os problemas gerados pela confusão entre o lado nominal e o lado real da economia
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Nominal vs. Real: a crashcourse
Imagine que em um belo dia o ditador de um país tenha determinado uma nova lei secreta: nesse país, a unidade de medida “metro” está menor, sendo metade do que era até então. Todas as réguas, trenas, fitas métricas e demais ferramentas de mensuração de comprimento são recolhidas e substituídas por novas, sem explicações adicionais. Apenas o ditador e seus comparsas sabem dessa mudança no metro.
Com essas novas ferramentas, a altura de João, um cidadão desse país, que antes era de 1,70 m, passa a ser agora de 3,40 m. João fica surpreso, embasbacado: como se fosse mágica, ele dobrou de tamanho. Ele está mais alto. De fato, João agora é um gigante.
Só que não. O erro que João cometeu é óbvio: ele considerou que a mudança na medida de uma variável (altura, medida em metros) foi causada pela mudança real na variável (altura), sem levar em conta que na verdade foi a unidade de medida (metro) que mudou em relação às coisas que ela mede.
Para ter certeza que foi a unidade de medida que mudou, e não a coisa que ela mede, basta um exercício simples: basta comparar sua altura com as demais coisas que a unidade de medida mede. Se a proporção entre a altura de João e de Pedro continua a mesma (por exemplo, se João ainda possui 0,9 da altura de Pedro), se a proporção entre a altura de João e seu abajur continua a mesma, se a proporção entre a altura de João e todas as demais coisas que ele pode medir continua a mesma, então a conclusão óbvio é que houve somente uma mudança nominal na altura/comprimento/largura das coisas — ou seja, uma mudança na unidade de medida — e não uma mudança real — ou seja, uma mudança no tamanho das coisas.
Vamos a outro exemplo. Suponha que a inflação de certo ano tenha sido de 20% mas que o salário de um indivíduo nesse período tenha subido de R$ 1.000 para R$ 1.100 (sim, esse indivíduo é extremamente pobre). Seu salário subiu em 10%, mas o preço das coisas que ele compra subiu em 20%1. É óbvio, portanto, que tal indivíduo está mais pobre. Porém, se alguém olhasse somente para a variação do seu salário medido em reais, poderia dizer que ele está mais rico. Esse é exatamente o mesmo tipo de erro cometido por João no exemplo anterior: tomou a mudança na unidade de medida (reais) pela mudança na coisa que ela mede (salário).
Novamente, para perceber o erro, basta medir o salário desse indivíduo em termos de outras coisas que o dinheiro mede: seu salário de R$ 1.100 pode comprar mais ou menos caixas de leite? Mais ou menos pacotes de arroz? Mais ou menos litros de gasolina? A resposta seria menos para todas essas perguntas, e a conclusão inevitável seria que o indivíduo está mais pobre2, mesmo que seu salário medido em reais tenha aumentado.
Esse é o erro conhecido na economia como “money illusion”, conceito introduzido pelo grande economista Irving Fischer. Ele consiste em tirar conclusões acerca de uma variável econômica olhando somente para a sua variação em termos de sua unidade de medida (unidades monetárias), sem considerar variações na própria unidade de medida.
A economia é uma ciência particular neste sentido: a principal unidade de medida associada à ela (o valor do dinheiro) muda constantemente. Isso não ocorre em outras ciências como a física ou a química: diferentemente do exemplo inicial, o metro e outras unidades de medidas importantes para a ciência não mudam (pelo menos, não com frequência), tendo definições precisas determinadas por órgãos como o BIPM, que é responsável pelo Sistema Internacional de Unidades.
É por causa dessa particularidade da economia que os economistas separam a maioria das variáveis econômicas em duas classes: a variável nominal e a variável real. A variável nominal é medida em termos de unidades monetárias; já a real, em termos das outras variáveis medidas pela unidade monetária. No exemplo acima, o salário nominal do indivíduo seria inicialmente de R$ 1.000 e depois de R$ 1.100, tendo variado 10%; já seu salário real seria inicialmente de R$ 1.000, por exemplo, e depois de R$ 1.100 / (1.000*1,2) = R$ 917. Ou seja, levando em conta essa mudança na unidade de medida, seu salário diminuiu 8,33%.
Outra forma de verificar que seu salário diminuiu, que é melhor que a forma anterior, pois torna mais explícito seu empobrecimento, é comparar quantos pacotes de arroz o indivíduo podia comprar antes e depois da mudança nos preços. Suponha que inicialmente o preço do pacote de arroz estivesse em R$ 5. Portanto:
Pacotes de arroz que ele pode comprar inicialmente (Q_t):
Pacotes de arroz que ele pode comprar após a mudança nos preços (Q_{t+1}):
Ou seja: ele pode comprar menos pacotes de arroz após a mudança nos preços. Logo, seu salário real diminuiu. Mesmo que seu salário medido em reais tenha aumentado, seu salário medido em pacotes de arroz diminuiu — esse é o cerne da diferença entre o nominal e o real.
Poupança nominal vs. Poupança real
Agora que sabemos a diferença entre variáveis reais e nominais na economia, vamos analisar essa diferença do ponto de vista da poupança. Mas, como um passo intermediário, vamos primeiramente analisá-la do ponto de vista do investimento.
O que é investimento? É todo bem e serviço que é usado para a expansão da produção da economia. Ou seja, são bens e serviços usados na produção de capital físico (máquinas, fábricas, infraestrutura), produção de capital humano (escolas, universidades, professores) ou para melhorar a produtividade total dos fatores (como bens e serviços usados em P&D).
Como quase todas as demais variáveis da economia, o investimento pode ser medido de duas formas:
Investimento em termos monetários: por exemplo, foram investidos R$ 5 milhões para construir uma nova ponte.
Investimento em termos reais: por exemplo, todos os recursos usados para construir a ponte (aço, concreto, madeira, trabalho, etc.) equivalem a x pacotes de arroz ou y litros de gasolina.
Pois bem, continuando, o que é poupança? É todo bem e serviço que estava até então ocioso até que foi usado para o investimento. Seguindo o exemplo acima:
Poupança em termos monetários: R$ 5 milhões estão guardados no banco e podem ser usados para construir uma nova ponte.
Poupança em termos reais: todos os recursos ociosos que podem ser usados para construir a ponte equivalem a x pacotes de arroz ou y litros de gasolina.
Ora, se o investimento é o uso de bens e serviços para produzir outras coisas, só pode que a produção desses bens e serviços precisa ocorrer previamente ao seu uso. Portanto, logicamente, necessariamente, a poupança precede, cronologicamente, o investimento.
Talvez alguém que tenha lido o trecho “R$ 5 milhões estão guardados no banco” pensou imediatamente na seguinte refutação:
“O banco pode emprestar R$ 5 milhões mesmo que nenhum dinheiro esteja previamente guardado, pois bancos podem criar dinheiro do nada. Dinheiro pode ser criado somente com alguns cliques nos notebooks corretos. Assim, investimento pode acontecer sem que haja nenhuma poupança prévia. Refutado!”
De fato, é assim que o sistema financeiro moderno funciona. Porém, essa suposta refutação comete o mesmo erro sobre o qual eu venho falando ao longo de todo este texto: confunde variável nominal com real. Sim, “poupança nominal” pode ser criada do nada, somente a partir de alguns cliques. Mas isso fará com que o aço, o concreto, a comida que alimenta os trabalhadores, os guindastes, as retroescavadeiras surjam também a partir desses cliques? É óbvio que não! Esses bens só podem ser produzidos previamente, a partir de recursos previamente ociosos. A partir de poupança real.
É a partir desse erro conceitual entre poupança nominal e poupança real que comentários como este acontecem aos montes:
Primeiramente: “provar” causalidade a partir de uma identidade (que é o que a equação se trata) é um erro crasso. Identidades, por definição, não provam nada. Mas, para além disso, também há o erro de confundir poupança nominal com poupança real, e assim achar que de fato investimento pode preceder poupança.
O que realmente pode acontecer, que foi aquilo que Keynes ensinou para todos nós e que está profundamente enraizado na economia mainstream moderna, é que gastos do governo podem gerar aumento no produto da economia devido ao fato dos preços e salários serem rígidos. Assim, é possível que, em um contexto de recessão, o governo faça investimentos que aumentem a renda e a produção da economia, aumentando, assim, a poupança. Porém, tais investimentos só puderam ser feitos porque havia poupança (real!) prévia (principalmente se tratando de um contexto de economia em recessão, com muitos recursos ociosos). Portanto, o fluxograma correto seria algo como:
Onde S representa poupança agregada e I investimento agregado.
Kaleckianos e pós-keynesianos de toda sorte ignoram a primeira seta e focam apenas na segunda.
Sobre a ausência do conceito de poupança real na economia mainstream
O conceito de “poupança real” (“real saving”) foi bastante usado pelos economistas clássicos e austríacos em suas teorias. Porém, raramente se vê essa expressão hoje em dia. Mas isso não significa que esse conceito não esteja presente nas teorias mainstream modernas, pelo menos nas entrelinhas.
A definição mais usual de poupança é que ela é a diferença entre a renda e o consumo, ou seja:
Ou seja, poupança é renda não consumida. Mas, ora, se sabemos que, em termos macroeconômicos, renda é igual a produto, então poupança é produto não consumido: ou seja, produto ocioso.
Esse enfoque da economia moderna na poupança como uma espécie de resíduo monetário, sem considerar sua natureza real, abre margem para má interpretações econômicas, como a colocada acima. Isso é uma pena, pois o conceito de poupança real — bem como de salário real, juro real, câmbio real, etc. — é de suma importância para o entendimento correto das relações econômicas.
Conclusão
O uso predominante de conceitos nominais na macroeconomia moderna, embora útil para a descrição contábil e para modelagem, frequentemente mascara os fundamentos reais. Ao entender que poupança nominal pode ser criada instantaneamente, mas poupança real não, vemos com clareza que o verdadeiro limite ao investimento não é monetário, mas sim físico.
Quando analisamos a poupança e o investimento apenas em termos monetários, ignoramos que o dinheiro é, em grande medida, um véu que encobre as relações econômicas reais3. Ele mede, registra e facilita trocas, mas não cria bens, não produz máquinas, não ergue pontes nem alimenta trabalhadores. É apenas ao olhar para os recursos reais (os bens e serviços efetivamente disponíveis) que percebemos que todo investimento depende logicamente de uma poupança real prévia, isto é, de recursos que não foram consumidos e que podem ser redirecionados para a produção futura.
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Para fins de simplificação, vamos considerar a irreal suposição de que todos os preços tenham aumentado na mesma proporção.
Com isso não quero dar o mesmo entendimento de “véu” dado, por exemplo, pelos economistas clássicos, que consideravam que mudanças monetárias não alteram variáveis reais. É mais do que sabido que mudanças monetárias geram sim mudanças reais — pelo menos no curto prazo.







Texto maravilhoso. E um conceito que é bem interessante sobre poupança, é que ao poupar - decidir colocar o dinheiro no banco, em detrimento à aquisição de um bem imediato para um desejo futuro - estamos economizando recursos. Pois, todo fator de produção (trabalho, capital, terra, madeira, ferro e etc.) não será utilizado para produção, dado que não houve a compra no presente. Como o artigo explicou muito bem, poupar não se trata apenas de dinheiro, moeda corrente, vai muito além disso.