Gustavo Machado está errado: É possível sim mensurar o PIB de séculos atrás
O que Gustavo Machado possui de empáfia ele possui de ignorância em economia. Neste caso, sobre pesquisa em história econômica.
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Introdução
Muitas pessoas acham que não é possível mensurar o PIB de economias não-monetárias. Como consequência, acreditam não ser possível mensurar o PIB de sociedades passadas, quando as trocas comerciais ainda não formavam a base da economia e o dinheiro circulava pouco. Assim, não acreditam que é possível comparar o PIB de, por exemplo, 1800, com o PIB de 2020. Dessa forma, acham estranho quando veem gráficos como o abaixo:

Essa estranheza é inicialmente justificada. Afinal, dado que o PIB é medido em unidades monetárias e dado que a troca de mercadorias por moeda sempre ocupou uma parcela restrita das atividades de produção e consumo de bens e serviços no passado, tendo se tornado algo onipresente somente nos últimos séculos, como é possível medir o PIB do passado?
A pergunta de como é possível calcular uma medida quando ela ainda não existia, e quando sequer existia aquilo que a medida mede — a produção medida em unidades monetárias — é mais do que legítima.
O próximo passo, para uma pessoa intelectualmente honesta, seria ir atrás dos estudos que fazem essas medições e estudar sua metodologia, para entender como eles chegam aos números aos quais chegaram. A ignorância pode ser curada pela curiosidade intelectual.
Por outro lado, uma atitude completamente arrogante, anti-intelectual, anticientífica, inimiga do conhecimento, é concluir: “como eu não sei como o PIB foi calculado, então esses estudos só podem estar errados!”
Essa atitude é equivalente à do terraplanista que, não sabendo como os astrônomos concluíram que a Terra é esférica, e dado que é imediato e intuitivo acreditar que a Terra é plana, descarta a ideia de Terra esférica. Ou do indivíduo que acha que as doenças são causadas por miasmas, mau ar, cheiro ruim, pois isso é intuitivo — afinal, cheiro ruim geralmente acompanha doenças — ao invés de pesquisar mais a fundo para entender como os cientistas descobriram as causas verdadeiras das doenças.
Gustavo Machado segue essa linha. Por exemplo, no vídeo “KIM KATAGUIRI | Com esse gráfico o capitalismo venceu EP #96” ele fala no minuto 03:25:
Você imagina que você tem lá uma família camponesa que produziu sei lá quantas sacas de farinha, que ficou armazenada para eles consumirem ao longo de um ano. Como que você mensura essa porcaria em dólar?
Em 04:29:
As coisas não eram sequer produzidas para a troca, mas para o consumo, então elas não eram mensuradas quantitativamente, não havia essa necessidade. Mas eles “fazem” o PIB per capita. Esses caras são realmente muito fodas.
Pois bem, para combater a ignorância, vamos responder a essa questão de como se calcula o PIB de economias não-monetárias.
Como se calcula o PIB de uma economia não-monetária?
Em resumo, a resposta é simples: contabiliza-se a produção de bens e serviços dessa economia e então compara-se quanto a produção de cada um desses bens e serviços vale em unidades monetárias em certo ano (geralmente o dólar Geary–Khamis). No exemplo usado por Machado da família camponesa, calcula-se a quantidade de sacas de farinha produzida por essa família e então multiplica-se pelo valor da saca de farinha em dólar internacional em certo ano, garantindo que se levou em conta a inflação e a paridade de poder de compra.
Essa resposta simples esconde por trás um esforço hercúleo dos historiadores econômicos, uma empreitada científica das mais valiosas. Tome como exemplo o livro “British Economic Growth, 1270-1870”, de Broadberry et al., um dos trabalhos mais minuciosos da reconstrução das condições de vida dos indivíduos de sociedades passadas. Para medir a produção da Grã-Bretanha durante a Idade Média, os autores implementaram os seguintes passos:
Agropecuária: Para calcular a produção agropecuária, os autores usaram contas senhoriais (Manorial Accounts) e inventários post-mortem (probate inventories). Esses documentos listavam fisicamente a produção e o estoque. Por exemplo: “Temos 50 ovelhas, colhemos 20 sacas de cevada por acre, temos 100 acres plantados, etc.”. Então os autores calcularam a produtividade média por acre e multiplicaram pela terra arável total da Inglaterra (estimada via Domesday Book de 1086 e outros censos de terra). Isso deu o volume total de produtos agropecuários produzidos, independentemente do produto ter sido vendido ou usado para consumo próprio.
Indústria: Os autores focaram em bens padronizados cujos registros físicos sobreviveram: metros de tecido de lã, toneladas de estanho e carvão, número de livros impressos, etc. Para setores sem dados (como construção), eles usaram proxies (indicadores indiretos), assumindo que tais setores cresciam conforme a população urbana aumentava.
Serviços: Sendo o setor menos tangível, os autores estimaram a produção deste setor baseando-se em taxas de urbanização, volume de carga transportada em navios e receitas do governo.
Com toda a produção física/real de bens e serviços computada, falta colocar tal produção em termos monetários. Por mais que grande parte da produção agrícola fosse para consumo familiar, de subsistência, ainda assim existia um mercado para tais produtos e existiam, portanto, preços para os excedentes. Os autores então pegam o preço de mercado desse produto na época e aplicam esse preço a toda a produção, inclusive à parte que nunca foi trocada por dinheiro, mas serviu para consumo interno. Para fazer comparações internacionais, os autores trazem esses valores monetários para Libras Esterlinas (Pounds) constantes de 1700, e então convertem essas Libras de 1700 para Dólares Internacionais de 1990 (Geary-Khamis dollars).
Voilá, dessa forma os autores conseguiram medir o PIB da Grã-Bretanha no ano de 1300, por exemplo, mesmo com a troca de mercadoria por moeda integrando uma parte pequena da economia.
Assim como esse trabalho de Broadberry et al., existem vários outros trabalhos com metodologias e técnicas extremamente sofisticadas para superar o problema da falta de dados da contabilização do PIB. Por exemplo, para calcular o PIB da Itália entre 1300 e 1913, considerando que esse país não possuía registros unificados de produção como a Inglaterra, não sendo possível, portanto, replicar a metodologia de Broadberry et al. na íntegra, Paolo Malanima estimou qual seria o consumo calórico que a população precisava ingerir para sobreviver e usou a taxa de urbanização como proxy para a produção industrial e de serviços.
Ou então pegue o trabalho de Álvarez-Nogal e Escosura sobre a reconstrução do PIB da Espanha em séculos passados. Eles pegaram dados de salários reais e preços, estimaram quanto de produtos agrícolas a população teria consumido dado esses salários, e então deduziram a produção da região. Basicamente, os autores fizeram uma engenharia reversa: se a população comia X e ganhava Y, a economia tinha que estar produzindo Z.
Ou seja, existe toda uma literatura bem estabelecida de Contabilidade Nacional Histórica (Historical National Accounting). É melhor estudar essa literatura antes de fazer críticas mal formuladas.
É óbvio que existe uma grande incerteza nessas estimativas. Essas incertezas são geradas tanto pelo fato dos números em si serem incertos (por exemplo, os dados do Domesday Book ou das contas senhoriais) quanto pelo fato de que, devido aos gaps nos dados, suposições tiveram que ser feitas (como a suposição de que o setor de serviços cresce à mesma taxa que a urbanização).
Mas é assim mesmo que a ciência funciona. Há muita incerteza envolvida em muita medição. O ponto é: será que essa incerteza é grande o suficiente para invalidar completamente as conclusões as quais se chegam a partir da medida? No caso do PIB ou do PIB per capita, a resposta a essa pergunta é claramente um “não”, uma vez que o cálculo do PIB de sociedades passadas, mesmo considerando uma banda de incerteza, nos traz uma big picture inevitável: o mundo enriqueceu muito nos últimos séculos.
Talvez essa conclusão inevitável explique a ojeriza que Machado e afins possuem dos cálculos do PIB do passado. Dado que Machado é marxista, ele não pode admitir que a qualidade de vida das pessoas comuns vem aumentando ao longo do tempo (como qualquer passada de olho no site Our World in Data pode atestar). A ideia de que a qualidade de vida do cidadão comum é cada vez menor sob o capitalismo é central na visão de mundo marxista.
Ademais, creio que existe outro fator na explicação do porquê Machado nega a possibilidade da mensuração do PIB de economias pré-monetárias: tal como muitos heterodoxos, ele crê que elementos universais estudados pela ciência econômica são elementos puramente contingentes do capitalismo. Ele não percebe que conceitos como taxa de juros, preços (como preço-sombra), valor, poupança, investimento e, inclusive, PIB (com certas ressalvas), são conceitos econômicos universais, que se aplicam em qualquer situação onde há escassez — seja uma tribo do neolítico ou o Wall Street. Em suma, ele não admite a Similitude Formal da economia1.
Conclusão
A mensuração do PIB de economias pré-monetárias é o resultado de um rigoroso esforço científico que traduz a realidade econômica das sociedades em dados comparáveis. Ao utilizar registros históricos, inventários e proxies de consumo, a Contabilidade Nacional Histórica supera a ausência de circulação monetária massiva do passado, permitindo-nos enxergar além das incertezas estatísticas e compreender a estagnação material que caracterizou a maior parte da história humana até a decolagem econômica recente.
Desqualificar esses estudos com base na incredulidade pessoal ou na “estranheza” intuitiva reflete uma postura anti-intelectual, além de, no caso de críticos como Machado, uma necessidade de proteger dogmas ideológicos contra a realidade empírica.
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Leia também:
How do we know the history of extreme poverty? (texto bem didático sobre este assunto do Our World in Data)
Não faz sentido comparar valor de mercado de empresas com PIB. Veja aqui o porquê
Ainda farei aqui no blog um texto sobre a Similitude Formal da economia e os erros derivados da sua negação.





